A Geração Z constantemente é associada a cultura do healthcare, baixo consumo de álcool e a volta da valorização das artes manuais. Mas, a grande pergunta que precisamos fazer é: por quê esse comportamento mudou entre gerações e tem chamado tanto a atenção do mundo?
Existe uma grande icógnita entre quem são os verdadeiros GenZ. Alguns dizem que são os nascidos entre 1995 – 2005, outros dizem que são os nascidos entre 1997 – 2010. No final das contas, o que torna uma geração parte de uma cultura são os comportamentos, consumo e valores.
Especialmente quando falamos sobre “Teoria da Distinção”, do sociólogo Pierre Bourdier, onde explica que a escolha do consumo em massa não é um desejo individual, mas moldado pelas culturas pertencentes. Não podemos categorizar uma pessoa sem levar em consideração sua realidade social e financeira.
Como uma “integrante” da Geração Z, hoje vim trazer a minha opinião em relação ao assunto “nova onda das artes manuais”, e outros assuntos mais polêmicos relacionados ao consumo da Geração Z. Vamos conversar sobre o que leva a GenZ buscar conforto nas artes manuais e na nostalgia e qual é a relação entre o consumo e a arte.
Geração Z e a ânsia pelo pertencimento
A nossa geração foi a última grande massa de crianças conhecidas por termos uma infância longe das telas e com o pé no asfalto. Também fomos os últimos a saber o que é ter que aprender a mexer em analógicos e digitais na mesma intensidade.
E além disso, temos uma grande flexibilidade em usar a tecnologia, diferente do que muitas pessoas acham. Em contrapartida, a nossa adolescência foi baseada em comparação constante através das redes sociais, hiperconectividade mundial e dessociação da realidade.
Fomos marcados por uma infância criativa e uma adolescência web-compartilhada, onde a nossa personalidade foi construída em performance digital. Neste contexto, a Teoria das Tribos, de Michel Maffesoli, se encaixa perfeitamente. Parte da Geração Z consegue se encaixar em algumas tribos, como:
- Os gamers;
- Os cinéfilos;
- Os atletas;
- Os “cronicamente online”.
E dentro de cada tribo, ainda temos as subtribos:
- Os gamers fãs de pokemón ou jogadores de League of Legends;
- Os cinéfilos fãs de Marvel ou de “filmes cultos”;
- Os “ratos de academia” ou os “crosfiteiros”;
- E os “cronicamente online” de memes ou de notícias.
Todas essas tribos se baseiam em um hobbie central. E, aqueles indivíduos que se desapegaram dos seus hobbies de infância, ou que não desenvolveram hobbies fora do mundo digital, são considerados básicos e sem personalidade.
É nesse momento que a ânsia pelo pertencimento deixa de ser sobre socialização e passa a ser FOMO.
Ligação entre a ansiedade geracional e a busca pelo conforto emocional em massa
Hoje, em um mundo digital baseado em FOMO (fear of missing out, medo de ficar de fora das atualidades), a ansiedade é quem está em alta. Por um lado, as redes sociais vieram para “globalizar”, unificar o mundo. Por outro lado, toda a geração de jovens fica sabendo em tempo real tudo de ruim que acontece no planeta. Aqui eu te pergunto:
Até onde estar por dentro das atualidades é algo mentalmente positivo e emocionalmente saudável?


Em uma matéria da CNN Brasil, a psicóloga Lauren Cook afirma que, embora as novas gerações tenham mais acesso à informação do que nunca, há também a grande desvantagem do bombardeamento de acontecimentos preocupantes. Então até aqui, a ligação entre a Geração Z e as artes manuais é algo simples e intuitivo:
Quanto mais ansiedade um indivíduo sente, maior será a busca pelo conforto emocional. E, sendo parte da geração mais bombardeada por temas emocionalmente sensíveis, é natural que essa grande massa – a Geração Z – busque hobbies fora do mundo digital, como a cerâmica fria e a cerâmica artesanal.
Entre os hobbies mais adotados, vemos:
- Beach tennis e vôlei de praia;
- Crossfit ou corrida de rua;
- Crochê ou cerâmica fria;
- Pilates ou yoga.
Mas, se a Geração Z busca hobbies fora do mundo digital, porque esses hobbies estão tão em alta nas redes sociais?


E a minha resposta para isso é simples: eu acredito que, atualmente, os nossos hobbies são tão ligados à busca pelo conforto quanto pela aceitação de uma nova tribo. Não basta que as nossas atividades preferidas supram a nossa dor emocional, precisamos também da aprovação externa ao resultado das nossas atividades.
O papel dos aplicativos na performance digital
Na busca pelo pertencimento cultural, as grandes empresas entenderam o comportamento da Geração Z. A ansiedade de estar scrollando constantemente, o medo de ter a vida “perdida” e a vontade de abraçar o nostálgico une toda uma geração de crianças criativas, adolescentes hiperconectados. Por isso aplicativos travestidos de “atividades diárias” fazem tanto sucesso entre essa geração. Alguns exemplos são:
- Duolingo – Idiomas;
- Strava – Atividades Físicas;
- GymRats – Academia;
- Letterbox – Filmes e séries;
- Skoob – Livros;


Por outro lado, existem softwares mais sutis, que vendem a ideia da orgnização pessoal, e fazem isso sem precisarmos da aprovação alheia. Pessoalmente, o meu preferido é o Forest: um aplicativo que nos ajuda a largar o celular enquanto construimos uma floresta digital e real.
Inclusive, esse aplicativo em específico bloqueia o acesso a outros aplicativos enquanto você está em “foco total”. O objetivo dele não é te ajudar a performar na internet, é te ajudar a fazer um detox digital.
Dentro da ideia do detox digital, também há outros termos fortemente adotados e pesquisados nos últimos 10 anos, como:
- Dopamine detox – Já que o scroll das redes é muito associado ao vício de dopamina;
- Minimalismo digital – Trás a ideia de ter poucos aplicativos, apenas aqueles essenciais;
- Touch grass – Um meme mundialmente conhecido, trazendo a ideia de que as pessoas precisam sair das redes e “tocar mais na grama”.
Assim, podemos compreender como a busca pelas artes manuais tem crescido tanto nos últimos anos, ficado cada vez mais popular.
Os jovens buscam ficar fora das redes → Buscam referências do que fazer fora das redes → Praticam seus hobbies → Publicam nas redes sociais para mostrar que estavam fora das redes.
Mas cada hobbie escancara uma classe social diferente. Curioso, não?
É aqui que entra a Teoria da Distinção, de Pierre Bourdier.
Teoria da Distinção e o consumo da Geração Z.
O sociólogo Pierre Bourdieu aborda a Teoria da Distinção em sua obra A Distinção: Crítica Social do Julgamento (1979). Ao longo do livro, ele defende que o gosto não é uma escolha puramente individual, mas sim resultado de condicionamentos sociais que moldam preferências, comportamentos e formas de consumo.
Dentro dessa perspectiva, aquilo que consumimos não surge apenas de uma decisão pessoal, mas de um conjunto de influências estruturais que organizam a forma como percebemos valor, estética e pertencimento. O gosto, portanto, não é espontâneo, ele é construído.
Bourdier cita em seu livro, na página 216, capítulo 4, 1ª edição:
No caso da produção dos bens culturais, pelo menos, a relação entre oferta e demanda reveste uma forma particular na medida em que a oferta exerce sempre um efeito de imposição simbólica: um produto cultural […], um gosto que foi levado da imprecisa semi-existência da experiencia vivida para o semiformulado ou informulado, assim como do desejo impIícito, ate mesmo, inconsciente, para a plena reaIidade do produto acabado […].
Isso significa que os produtos culturais não apenas atendem a um gosto já existente, mas ajudam a moldá-lo, organizá-lo e até legitimá-lo socialmente. Ou seja, aquilo que consumimos também nos ensina como consumir.
Ao mesmo tempo, o próprio gosto passa a funcionar como um sistema de classificação social, como o autor complementa:
Um relatório da World Finance mostra que a Geração Z bebe, em média, 20% menos que os millennials, que por sua vez bebem menos que as gerações mais velhas. […] Quase 86% da Geração Z acredita que sua saúde mental é tão importante quanto sua saúde física quando se trata de consumir álcool.
~ Kristen Fuller, para um artigo do Alcohol Help.
A partir disso, é possível compreender o comportamento da Geração Z sob uma nova ótica. Mais do que uma simples preferência por hábitos saudáveis ou atividades manuais, o que está em jogo é um movimento de diferenciação social.
A valorização de práticas como o crochê, a cerâmica, o pilates ou a corrida de rua não representa apenas uma busca por bem-estar, mas também a construção de uma identidade que se distingue de outras gerações. Ser mais “analógico” em um mundo digital, ou mais “saudável” em relação às gerações anteriores, torna-se uma forma simbólica de posicionamento social.
Assim, a Geração Z não apenas consome tendências, ela participa de um processo coletivo de construção de gostos que, ao mesmo tempo, expressam pertencimento e produzem distinção.
A estética da autenticidade como capital social
Se antes o status estava ligado ao consumo visível, hoje ele se desloca para algo mais sutil: a estética da autenticidade. Ser natural, analógico ou low profile deixou de ser apenas uma preferência individual e passou a funcionar como um marcador social.
Quem mostra muito → Ostentação.
Quem tem muito, mas mostra pouco → Chique, low profile.
Dentro desse contexto, hobbies manuais como crochê, cerâmica ou até a leitura física de livros não representam apenas uma busca por conforto emocional. Eles também constroem uma imagem. Uma identidade. Um estilo de vida que comunica algo para os outros, mesmo quando não é verbalizado.
Afinal, quem é CLT não tem o luxo de poder fazer pilates às 10:30, ou praticar cerâmica artesanal às 15:00. Os hobbies não são apenas um recurso de pertencimento cultural, mas também financeiro.
Existe uma valorização crescente do que parece mais “real”. O artesanal ganha espaço, o imperfeito passa a ser bonito e o feito à mão carrega um significado que vai além do objeto em si. Não é apenas sobre fazer algo, mas sobre o que esse fazer representa socialmente.
Os hobbies contemporâneos e a Teoria da Distinção
Isso se conecta diretamente com a Teoria da Distinção, de Bourdieu. O que vemos aqui é a formação de um novo tipo de capital simbólico. Um valor que não está necessariamente no dinheiro ou no acesso a bens tradicionais, mas na forma como certos comportamentos são percebidos e legitimados dentro de determinados grupos.
Nesse sentido, ser alguém que lê, que pratica um hobby manual ou que busca uma rotina mais “offline” pode funcionar como um diferencial social. Não porque essas práticas sejam raras, mas porque elas passam a ser reconhecidas como sinais de consciência, equilíbrio ou até sofisticação.
E talvez aqui esteja uma das maiores viradas da Geração Z: o luxo deixou de ser o excesso e passou a ser o simples. Mas um simples que é visto, compartilhado e, de certa forma, performado.
E você? Qual é a subcultura que você faz parte? Da onde veio a sua autenticidade?





